ANACRONISMO MODERNO / Luigi Ricciardi

Luigi Ricciardi vem nos contar histórias em seu primeiro livro. Elas não vêm exatamente no formato do conto tradicional. Sua preocupação com a linguagem, seu preciosismo e seus desenhos de imagens fazem com que os parágrafos do livro se aproximem frequentemente da prosa poética. Seus personagens são seres solitários, abandonados de si, presos em ? e presas de - um mundo sem sentido.

Idosos convivendo com a sensação de inutilidade, mulheres esvaziadas de autonomia, crianças massacradas, jovens em busca de um rumo invisível, adultos dando-se conta do tempo perdido. Essas narrativas intimistas, pessimistas, podem parecer apenas negativas ? mas não são. A voz de Ricciardi é a voz de um jovem que anseia tremendamente ?por uma vida menos ordinária?. Seus textos falarão com facilidade a tantos outros leitores, jovens e não tão jovens, que se perguntam todos os dias se não haverá, atrás de algum horizonte, um cotidiano menos estúpido, sentimentos menos convencionais, uma existência que não se assemelhe tanto às prisões do tédio e da frustração num mundo burguês e provinciano.

Seus textos expressam com veemência a necessidade de escapar, ainda que para um destino desconhecido, como a família de oleiros alentejanos do romance A Caverna, de José Saramago. (Aliás, não é por acaso que o Nobel português seja uma das leitura preferidas do autor.) Essa mesma veemência, mascarada num tom falsamente tranquilo, falsamente resignado, é o que confere uma positividade ao livro. Ricciardi exorciza seu medo de se tornar um ser humano medíocre e conformista, convidando seus leitores a fazerem o mesmo.

Ao mostrar seu  próprio descontentamento, fará com que outros encontrem uma expressão literária do descontentamento de cada um. Ele busca, e continuará buscando, saídas, como o Abel do último conto. E, embora receie o que poderá encontrar durante a busca, nem por isso abrirá mão de fazê-lo.  Essa certeza não expressa é que confere o tom maior do livro: trata-se, afinal, de um bilhete de ambar.

Anacronismo Moderno não é um livro: é um abismo. Quem se aventura nesse punhado de histórias (crônicas, contos, desabafos, gritos, sussurros ? chame do que quiser), despenca lá pra baixo, num breu sem som, do primeiro verbo à última metáfora. De mão cheia, Luigi Ricciardi dá seu pontapé literário ? e oferece a cara à peixeira ? servindo doses cavalares de tristeza e melancolia: é assim, amargo, o tom daqui pra frente. No abismo, ?a roda que gira o mundo? nesta ?terra não gentil? move, também, a literatura. Que fala de suicidas, alcoólatras, sonhos despedaçados: ?A vida é a morte dos sonhos?, defende, numa das metáforas.

Residindo na terra das trezentas duplas, fatigado e farto do sertanejo ?universiotário?, Ricciardi faz do abismo sua metranca para disparar verdades do tipo: ?Nesta cidade há poucos espetáculos teatrais?; ?Só se vê gente empunhando chapéus, soltando gritos e exibindo esporas?; ?O analfabetismo amebou esta cidade?. E não tá, então, cheio de razão? Enquanto alguns se engalfinham para explodir a linguagem, o autor escolhe a defesa. Nada de gírias, nada das ruas.

A linguagem rebuscada é levada a sério, por alguém que se considera ?um nada, e ainda por cima só?. A literatura de Ricciardi ? sótão, esconderijo, grito de vergonha ? vem debaixo da angústia, que tá debaixo da dor, que aparece um pouco abaixo do desespero, que, por sua vez, só surge ali, um pouco abaixo da frustração. Anacronismo Moderno não é um livro: é um abismo.
Alexandre Gaioto

Na maioria das vezes, viver é um acidente de percurso. Quando se descobre já se está aqui, e com armas apontadas à cabeça.
Avessa Epifania

Umbigo corredor de fórmula um, campeão mundial de Freud. Se na corrida outro motor é mais forte, senta a chorar ao lado do muro. Desculpa-se com o mundo por sua falta de tempo, mentiras contadas diante da tela hipnotizadora. Por ela acha que compra o mundo, por ela acha que ganha pessoas.
A Insustentável Leveza da Bolha de Sabão

Nos rostos ensalmados pelo deleite, via-se derramar lágrimas de seus olhos; ele a contemplava quase sem crer na oferenda recebida, enquanto que ela lhe sorria crepusculamente, a explodir com seguidas fruições. Chocando-se, rio e terra, tocaram o tecido celeste, indo bater à porta do criador. Deitados, extasiados, brandamente tocavam as faces alheias e dialogavam com o infinito tendo os olhos fechados.
Manhã Dolosa

As toupeiras não vivem debaixo da terra. Andam, quase cegas pela luz solar, em meio às ruas buscando alguma terra para cheirar. Enxergam obnubilado, e sorriem, com seus dentes estranhos, a todos que passam. Entre si, davam graças aos céus pela vida, pelo emprego e pelo pouco alimento que tinham. Mesmo após descobertas as falcatruas, votavam sempre no leão para prefeito da cidade.
Animal City

Sou a noite no apagar das luzes. Sou a lamparina que se apaga e não retorna a se acender. E a luz muda dos postes que ilumina as ruas também sou eu. Sou a chuva que penetra cruelmente nos ossos dos animais sem dono, sou também as entranhas animalescas e o paletó maltrapilho do mendigo encharcado pela nuvem eterna de descasos.
Sou

Luigi Ricciardi, nascido Luís Cláudio Ferreira Silva em 1982, na cidade de Londrina/PR, é graduado no curso de Letras Português/Francês na Universidade Estadual de Maringá/PR e atualmente é mestrando em Estudos Literários na mesma instituição. Em 2009 venceu um Concurso Nacional de Poesia com o texto ?Dança das Máscaras?. No mesmo ano teve o conto ?Brigadeiro? e o poema ?Vida Oblíqua? selecionados entre os melhores textos do ano. Anacronismo Moderno é seu livro de estreia.
luigi.ricciardi@rocketmail.com
expressaoliteraria.blogspot.com

Serviço:

Anacronismo Moderno
Luigi Ricciardi
Scortecci Editora
Contos
ISBN 978-85-366-2403-7
Formato 14 x 21 cm 
96 páginas
1ª edição - 2011
Preço: R$ 22,90

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