CONTOS QUE MINHA MÃE NÃO LEU / Roberto Grave


Nesta coletânea de dezessete contos, despretensiosamente, passeio com meus personagens, aonde o imaginário me conduzir. Muito custou colocar cada cria fora de casa, o medo natural de ganhar o mundo. Outras precisam chegar. Longe estou de habitar as terras de Macondo do grande Gabriel, muito menos de ensaiar a cegueira e as loucuras do genial Saramago. Simplesmente gosto da liberdade do surreal, onde posso ter a onipotência dos deuses, que me permitem emprestar minhas ideias e caneta ao Juca — meu cão, permitindo àquele “Adorável ranzinza” lançar sua autobiografia póstuma não autorizada; incentivo nas “Retrospectivas” o amor e o prazer de um casal quase octogenário; em “Tenro” enveredo pela corrida de um espermatozoide chegando e fecundando o pódio, sem aplausos nem aconchego; ousado, tomo o lugar do Gabriel García Márquez nos contos que ele gostaria de haver escrito, ao descrever os labirintos de um sonho, no “Imaginário”, são vários os corpos visitados. Como se buscasse oxigênio, volto ao real da superfície indo ou (não) ao “Casamento”, contraceno uma “Peça inacabada”, separo casais numa “Manhã de dezembro” e participo do “Crime da Rua do Gás”. Brincando com realidade e ficção. Voltemos à segurança da Terra do Nunca, aonde chego em plena Conferência Nacional dos Anjos do Brasil, que decidirá nosso prazo de validade, com “Fim de mundo”; visito também a Comunidade LGBT... (em alguns contos), em que promovo a separação de um casamento de duas senhoras com setenta anos em “Inexorável traição”; no “Contraditório” extrapolo meu direito de ampla defesa, para provar minha sanidade deixada pelo Alzheimer, e amparado nele mato alguns personagens de outros contos, além de brincar com a minha sombra, ufa! Ao final, assistindo de camarote a uma confusão, entendi a necessidade de encerrar o livro com “O bate-boca”, briga boba da Vida com a Morte. Confiram, capaz de ter muito mais.

Nascido em julho de 19…, o baiano/soteropolitano Roberto Grave buscou na escrita combater o tédio da aposentadoria, descobrindo uma ocupação bastante prazerosa. Inicia em 2004 uma série de reflexões que resultam numa coletânea de quarenta textos, pretensiosamente intitulada Ensaio da Razão, considerada pelo autor impublicável pelo caráter pessoal, quase escrita de confessionário. Coisas de momentos! Inevitavelmente parte para a ficção e nascem as primeiras crias, como: “(Des)caminhos”, “O casamento”, “Luto da esperança”, “Manhã de dezembro”, “Crime da Rua do Gás”, entre outros. Alguns já publicados, outros nesta coletânea, e ainda parte aguardando hora de seguir mundo afora. Em 2009, participa pela Livraria Asabeça de um concurso, que lhe confere a primeira colocação com a publicação do livro homônimo ao conto: Luto da esperança e outros contos, lançado na Bienal Internacional de São Paulo de 2010. A maioria das crias aguarda pacientemente sua vez de sair de casa e ganhar o imaginário dos leitores. Após longo marasmo ou bloqueio, expulsa “O adorável ranzinza — uma autobiografia póstuma não autorizada”, desentocando-o do fundo da memória do computador para participar do Prêmio Internacional Pena de Ouro — 2021; ano seguinte, concorrendo ao mesmo prêmio, inscreve “A errante”, codinome da felicidade, em que mais uma vez brinca com o surreal. Ambos ficam entre os vinte e cinco semifinalistas do concurso lusófono, posição que enche de orgulho esse eterno aprendiz de escritor e de quebra o incentiva a voltar aos imaginários; como, nesse caso, a idade não é empecilho à gestação, segue com seus personagens rumo à terra do sem-fim… Hoje, quando não está labutando com a palavra, inquieta-se. Assim, escrever voltou a ser sua grande paixão, e como toda paixão, uma necessidade. Acalma, ocupa, deixa-o feliz e prazerosamente vai dando cria.

Serviço:

Contos que Minha Mãe Não Leu
Roberto Grave

Scortecci Editora
Contos
ISBN 978-85-366-6472-9
Formato 14 x 21 cm
172 páginas
1ª edição - 2023
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