MEU CANTO LIVRE / Roberto Pellegrino
“Ah, como gostaria de ser escritor! Mas escrever é para quem sabe, não para quem quer. Então, limito-me a escrever algumas coisas pequenas, desimportantes, sem presunção. Isso, porém, não me satisfaz, porque gostaria mesmo de abordar temas relevantes como a Declaração Universal dos Direitos do Homem, e tachar de idiotas os que a ela se opõem em nome do respeito às diversidades culturais. Também gostaria de escrever sobre a mania que tem o ser humano, em todas as latitudes e longitudes e em todas as épocas, de complicar a própria vida por meio de, por exemplo, absurdas regras de etiqueta, de gramática e relativas às religiões. Para quê, me pergunto, “ajudar” a vida a se tornar ainda mais complicada de quanto normalmente já é? Se soubesse escrever bem, eu diria que as tais absurdas (muitas delas) regras de etiqueta e gramática têm propósitos elitistas. Mas como não sou escritor, não vou escrever nada disso e continuarei com os meus pedestres textos.”
"Palavras.
É só o que me restou: palavras.
Mais escritas do que ditas.
Todo o resto escafedeu-se.
Mesmo as palavras, eu as tenho,
mas a que servem?
A quase nada, para ser otimista;
a nada, para ser realista.
Ao menos, porém, ainda as tenho e as uso,
bem ou mal, não importa.
Se ninguém as escuta ou as lê,
tanto faz como fez.
Se poucos as entendem —
o que é muito provável —,
delas não é a culpa, pois as usei e uso
para bons entendedores.
E de bons entendedores estamos carentes,
ou dos que querem entender
e não se fazer de mortos."
C A N T O L I B E R T O
Nascido em Roma, Itália, a mocidade passada em Ourinhos, interior paulista, e por muitos anos jornalista na Editora Abril, Roberto Pellegrino reúne neste Meu canto livre dezenas de histórias curtas, algumas telegráficas, de reflexões sobre encontros e desencontros. Às vezes alegres, às vezes tristes, relatam vivências do autor no mundo da sua adolescência nos anos 1950 ou na Avenida Paulista, épocas depois, na fase mais madura. Em todas elas, a presença de rara sensibilidade poética, baseada sobretudo na memória, pois, sabe o autor, o passado é uma dimensão do presente e do futuro. Pellegrino mostra em sua trajetória aquilo que o fotógrafo francês Henri Cartier-Bresson (1908-2004) qualificou como moments décisifs do mundo ao redor e com raízes na realidade. E melhor: fixando, recriando e interpretando um momento individual ou coletivo, desperta nossa consciência para características pessoais e íntimas de uma vida nos últimos tempos.
Roniwalter Jatobá - E S C R I T O R
Serviço:
Meu Canto Livre
Roberto Pellegrino
Scortecci Editora
Crônicas
ISBN 978-85-366-7147-5
Formato 14 x 21 cm
192 páginas
1ª edição - 2025

