UMA GOTA DE SILÊNCIO / José Carlos Corrêa Cavalcanti

Este livro versa sobre a importância do autoconhecimento na busca religiosa. De maneira didática, na forma de capítulos pequenos, o autor discorre sobre temas como felicidade, arrependimento, sentimento de culpa, amizade, escravidão e libertação interior. Pode ser lido por pessoas iniciantes ou avançadas no conhecimento dos ensinos espirituais. Sua mensagem central é que (1) somente no estado de silêncio interno temos liberdade, deixando de ser governados pelos pensamentos e paixões, e que (2) não podemos realizar sozinhos esse estado, fazendo-se necessária a presença espiritual de um mestre absolutamente amoroso e totalmente confiável, o qual é aceito como sendo Jesus, o companheiro cuja elevada consciência de compaixão e unidade nos é dada gratuitamente e sem a menor noção de mérito, somente de entrega total e perfeita amizade.

Havia um formigueiro em volta do qual se formou um cinturão de pedras muito aquecidas, impedindo o movimento das formigas para além desse obstáculo, a fim de renovar os estoques de alimentos. O formigueiro se transformou numa prisão, motivando a realização de uma assembleia geral. A rainha, então, disse:
— Minhas súditas! Estamos diante de uma situação de real perigo para nossa sobrevivência. Mandei batedoras inspecionarem toda a barreira que nos envolve, e elas me informaram, depois de minuciosa análise, que o muro de pedra está cada vez mais quente, impedindo mesmo até a mera aproximação de nossas irmãs. Alguns conselheiros tomaram a palavra e expuseram variadas maneiras de lidar com o problema. Depois de muita discussão, prevaleceu o ponto de vista dos mais sábios, representados por uma idosa formiga, respeitada por sua prudência.
— Não há remédio, irmãs. É impossível transpor o muro de fogo. Apesar de estarmos confinadas, nossos celeiros estão cheios e nossas terras ainda são consideráveis. Se economizarmos, ainda temos muito tempo pela frente, e nossos técnicos poderão descobrir, talvez, maneiras de resolver esse grave problema.
Porém, o passar do tempo não trouxe solução e as dificuldades foram aumentando. Inúmeras formigas morriam, à medida que o calor adentrava o interior do formigueiro-prisão. Quando a tragédia assumia proporções gigantescas, verificou-se o milagre: algumas formigas adquiriram asas e puderam, assim, transpor a muralha da morte.
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Houve um homem que disse: “Necessário vos é nascer de novo”. Foi prontamente contraditado. Não o entenderam! Ele, então, explicou:
— “O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito”.
Ele aludia à transformação da mente humana, abandonando a concepção egocêntrica que a domina, em direção à Consciência Pura, sem mácula, pela qual se revela o Absoluto. Mas continuamos com o mesmo questionamento:
— Como o faremos? É impossível!
Quando o impossível é necessário, urgente e vital, surge a solução; porém, é preciso haver paixão, intensidade. Na mente de Jesus, a semente da compaixão e da unidade com Deus medrou espontaneamente, e está disponível para nós. Para ativá-la, basta entender o inconcebível gesto de amizade e desprendimento com o qual ele provou seu amor ao espírito humano imerso na ignorância. Mas você não conseguirá entender o incompreensível, e, por isso, sua mente ficará um pouco em silêncio: o impossível já está acontecendo. Quem ou o que está por detrás do pronome “eu”? Qual é a origem dos pensamentos? Será que eles são a voz do passado, de nossos desejos, necessidades e ambições? Geralmente achamos que nosso “eu” é a entidade que os produz. Se observarmos bem, porém, veremos que é exatamente o contrário: o mecanismo do pensamento é que gera a ideia do eu pessoal. Este, na ausência de pensamentos, simplesmente desaparece.   
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Pensamos que liberdade é poder fazer o que queremos. Mas esse é apenas o aspecto mais superficial da liberdade. Por quê? Primeiro temos que perceber que olhamos tudo com os olhos do passado, através de velhas fotografias mentais, o que distorce a visão. A verdadeira liberdade é o poder de não ser compulsoriamente guiado pelos pensamentos e condicionamentos; é a capacidade de olhar a vida com olhos novos, inocentes.
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Na mensagem de Cristo, a mente humana baseada na consciência de ego (governada pelo pensamento e emoção) é comparada com as trevas, e a mente super-humana, que realizou a Unidade com Deus, é mostrada como Luz. Também nós estamos sob as trevas da ignorância; nosso eu não sabe quem é, mas, tragédia das tragédias, não sabe que não sabe e pensa que sabe, o que dificulta sobremaneira que venha a descobri-lo um dia. Isso, por si só, justifica a importância do autoconhecimento. Para mim, a espiritualidade começa com a constatação da tristeza, frustração e dor, e da falta de sentido da existência sem a comunhão silenciosa com nossa Origem; adquire consistência com disciplina, indagações e reflexões cada vez mais aprofundadas, e segue rumo à meditação como forma de autoconhecimento e encontro de nós mesmos.
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Vejo a beleza de Jesus como sendo um homem que transcendeu a condição humana, realizando em si a Consciência Divina, e cujo inconcebível gesto de total amizade possibilitou a realização espiritual de seus discípulos. Para mim, sua ressurreição é um fenômeno que pode ocorrer em nossos corações agora, neste momento, e não num futuro distante, e ela acontece quando entramos no espírito do “Eu e o Pai somos um” — sendo esse o sentido da frase “Se Cristo não ressuscitou, então é vã a nossa fé”.
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O autoconhecimento e a meditação podem nos levar ao silêncio — e é uma longa jornada, em que abandonamos pelo caminho cotidiano nossas chagas emocionais e a vaidade de ser um eu à parte do Universo. Ao nos esvaziarmos de nós mesmos não mais nos pertencemos, e o Espírito tomará conta de nossas vidas, pois... “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito.”

Serviço:

Uma Gota de Silêncio
E Outros Escritos Sobre a Felicidade, Dor e Espiritualidade
José Carlos Corrêa Cavalcanti
Scortecci Editora
Espiritualidade
ISBN 978-85-366-5133-0
Formato 14 x 21 cm 
188 páginas
1ª edição - 2017
Preço: R$ 50,00

 
 
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